(Artigo) A formação de Pesquisadores e Profissionais do audiovisual: o papel da universidade e do mercado.

A FORMAÇÃO DE PESQUISADORES E PROFISSIONAIS DO AUDIOVISUAL: O PAPEL DA UNIVERSIDADE E DO MERCADO

Doris Fagundes Haussen*

A discussão sobre o perfil do profissional de audiovisual a ser preparado pelas Escolas de Comunicação passa, inevitavelmente, pela discussão sobre o mercado em que estes profissionais irão se inserir. Neste sentido, faz-se necessário uma avaliação sobre o contexto cultural mais amplo, a população, a indústria cultural instalada, as escolas de comunicação existentes, as diretrizes curriculares, entre outros fatores.

No caso brasileiro, a população é de cerca de 160 milhões de habitantes, sendo que 85,1% dos lares possuem TV. Das seis grandes redes de televisão do país, a Globo cobre 99,99% do território, o SBT, 97,46%, a Bandeirantes, 91,66%, a Manchete, 72,80%, a Record, 69,02% e a CNT, 41,00% (Fonte: Revista da Mídia, 1997). A Globo possui 104 repetidoras próprias, 832 retransmissoras próprias, 1474 retransmissoras de prefeituras, 266 de outros em geral, 502 por satélite. No total, possui 3178 pontos de retransmissão (Fonte: Simon.P.(rel.)(1998).

 

Por seu lado, a TV segmentada conta com a MTV, de música jovem, que alcança mais de 250 municípios brasileiros; a Rede Mulher, destinada ao público feminino, adulto, que retransmite para todo o país por TV a Cabo e canal aberto por satélite; a Rede Vida, dirigida à família, atingindo mais de 150 municípios e 600 localidades com retransmissoras secundárias; o Canal 21, de prestação de serviços, dirigido ao interior de São Paulo, e a CBI, também de serviços, cobrindo 26 municípios do interior de São Paulo, entre outras.(Fonte: Revista da Mídia,1997).

Os canais de TV por assinatura têm a sua penetração maior no sudeste (39,95%) e sul do país (13,16%), havendo 55 cidades com TV a Cabo e nove cobertas pelo sistema MMDS (a TVA conta com 270 mil assinantes) (Fonte: Simon, P.(1998)). Neste setor, atualmente os grupos regionais estão vencendo a maioria das licitações devido ao recuo dos grandes grupos operadores – Abril e Globo.

Sgundo análise da EPCOM/Internet(1998), com as crises internacional e brasileira, o mercado nacional de TV por assinatura, que chegou a ser considerado o melhor do mundo, pelas possibilidades de expansão, entrou em recesso, com inadimplência e perda de assinantes. Também contribuiu para a retração a dificuldade de obtenção de financiamentos no mercado internacional, e a privatização da Telebrás que, além de absorver investimentos, terá as novas empresas privadas atuando fortemente no mercado de transmissão de dados e provimento de serviços de acesso à Internet, segmento em que as operadoras de TV por assinatura pretendiam entrar. No entanto, os grupos Globo e Abril continuam dominando o mercado de programação e controlando os pacotes que as operadoras terão no Brasil para oferecer. “Ocorre assim no país, uma tendência internacional: as empresas regionais e independentes bancam os investimentos iniciais, desbravam os mercados para, depois, sem possibilidade de resistir, serem adquiridas pelos grandes conglomerados” (idem).

Os canais comunitários, por sua vez, encontram-se em fase de expansão. Uma experiência interessante está sendo realizada na região do ABC paulista. A Canbras, empresa do grupo Bell Canadá, que é a operadora de TV por assinatura da região, lançou no último mês de junho, o Canal ABC 3, que está sendo operado pelos próprios moradores da região que fazem a cobertura dos acontecimentos de interesse geral da população. O investimento foi de 500 mil reais.(Fonte: Epcom/Internet).

Quanto ao Rádio, 89,3% dos domicílios brasileiros possuem receptores. O número total de emissoras é de 2.961, sendo 1574 em ondas médias, 1275 em FM, 80 em ondas tropicais e 32 em ondas curtas. Há em torno de 10 grandes redes em AM e FM que operam de 12 a 44 emissoras por grupo, além de redes menores e de emissoras isoladas (Revista da Mídia). Em relação ao cinema, há cerca de 1500 salas de exibição no país com aproximadamente 200 filmes estreando por ano. Destes, 93% são estrangeiros, sendo 63% provenientes dos Estados Unidos e 7% nacionais (Reis e Silva, 1998).

Com referência à indústria fonográfica brasileira, trata-se da sexta no contexto mundial sendo que a produção nacional é de cerca de 70% (sem incluir a “pirataria”). Com a crise atual, no entanto, há tendência destes dados serem reduzidos em cerca de 30% (Maya Ricardo, 1998). Neste sentido, há também uma preocupação por parte das companhias fonográficas devido à fragmentação do gosto dos consumidores, decorrente das novas formas de acesso aos produtos. Conforme a Federação Internacional das Indústrias Fonográficas (IFPI), diariamente são baixadas pelas Internet três milhões de trilhas sonoras, na maior parte pirateadas. Esta prática tende a se disseminar com a iminente comercialização de pequenas máquinas portáteis que permitem aos consumidores armazenar músicas obtidas via rede. E, para enfrentar estes novos produtos, as empresas já estão desenvolvendo equipamentos similares. A tecnologia, portanto, está alterando todo o panorama desta indústria e, também, do mercado.

Outro setor que atua com o audiovisual, o da Publicidade e Propaganda, no caso brasileiro, possui um levantamento das agências efetuado pelo Sindicato da área. No entanto, estes dados referem-se apenas às agências filiadas. Por outro lado, segundo a publicitária Maria da Graça Celente (1998), é praticamente impossível indicar um número correto uma vez que, diariamente, são criadas – e também fecham – agências no país. No caso do Rio Grande do Sul, um dos Estados brasileiros, este número está em torno de 400. Trata-se, portanto, de um mercado expressivo.

Em relação às Escolas de Comunicação brasileiras, segundo dados da Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação (1998), há 152 Instituições que oferecem cursos de Comunicação, com 266 habilitações, sendo 93 de Jornalismo, 81 de Publicidade/Propaganda, 23 de Radialismo, 5 de Cinema, 3 de Editoração e 55 de Relações Públicas. Assim, os programas de audiovisual são trabalhados, na maioria das vezes, dentro dos cursos de Jornalismo e de Publicidade/Propaganda.

Brevemente, este é o panorama. No entanto, o fundamental, no caso específico, é a reflexão sobre o papel das escolas enquanto formadoras de profissionais e pesquisadores para esta realidade. A discussão não é nova. O atual, é a rapidez com que a tecnologia evolui e praticamente atropela a academia, num contexto em que a convergência das tecnologias tradicionais associada às inovações do setor exige um novo produtor (e um novo decodificador) destas linguagens. Por outro lado, da década de 70 em diante e, particularmente nos anos 90, houve uma explosão de abertura de novos cursos de Comunicação no país, com uma crescente procura pelos mesmos, embora ocorra uma saturação do mercado tradicional.

Sobre os pedidos de abertura de novos cursos no Brasil, Faro(1998) refere-se à proliferação descontrolada: “das regiões mais distantes do país, algumas com carências materiais formidáveis, brotam processos mal-articulados e precariamente fundamentados que acenam com centenas de vagas”, a maior parte dirigida às habilitações de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas. Ainda conforme o autor, na maioria dos casos trata-se de cursos mal-aparelhados do ponto de vista de suas estruturas laboratoriais , bem como da qualificação e do regime de trabalho do corpo docente. Uma das causas estaria na expansão do ensino privado que, com as exceções à regra, visaria mais o lucro do que o aprimoramento e a prática das respectivas áreas.

Outra crítica apontada por Faro refere-se à superficialidade da definição do perfil (e do número) dos profissionais que se pretende formar e que tem pouca relação com as características quantitativas e qualitativas do mercado das regiões em que os cursos se encontram instalados. Há referência, ainda, às raras inovações no campo didático-pedagógico e às lacunas teórico-conceituais “inter, multi e transdisciplinares que o ensino universitário cobra hoje de todas as áreas do conhecimento”.

O objetivo deste trabalho não é analisar apenas esta vertente do fenômeno, já abordada por outros autores (Marques de Melo, 1991; Andion, 1991;Navarro, 1991, entre outros). O objetivo aqui é o de refletir sobre o profissional – multimídia – que deverá atender às novas demandas e sobre o pesquisador que irá estudá-las, bem como a sua preparação pela Universidade no atual contexto. Afinal, quem é este novo personagem?

A multimídia é considerada como um conjunto de possibilidades de produção e utilização integrada de todos os meios da expressão e da comunicação, como desenhos, esquemas, fotografias, filmes, animação de textos, gráficos, sons, animados e coordenados por programas de computador. Por outro lado, estas novas tecnologias provocam profundas mudanças em padrões da sociedade, na medida em que aceleram o ritmo de vida das pessoas que dispõem, cada vez mais, de possibilidades de se informar. As noções de tempo e espaço deixam de ser barreiras, alterando a vida cotidiana de todos. A multiplicidade dos meios de comunicação, sua disponibilidade e a quantidade de informações geradas trazem, assim, a necessidade de um novo perfil para o profissional da área que, além do domínio técnico, necessita compreender este fenômeno como uma estrutura interligada. Um profissional multimídia, enfim.

Neste sentido, é preciso entender este universo não apenas como uma conexão entre computadores e suas possibilidades mas como um processo de interação entre mídias múltiplas, com diferentes linguagens. Assim como há necessidade deste novo profissional, as Escolas de Comunicação precisam alterar a sua visão e tornarem-se aptas a formar este novo perfil. Neste sentido, além da competência necessária a cada área profissional há a necessidade da compreensão desta realidade mais ampla e múltipla.

O profissional multimídia, por estar envolvido com uma atuação conjunta nos diversos meios de comunicação, que unem as características de cada veículo em uma só linguagem, precisa, assim, ter a noção de todo o processo da comunicação. Ao mesmo tempo, além desta necessidade de ser abrangente, precisa ser um especialista em determinados temas e habilidades uma vez que o mercado é cada vez mais segmentado, exigindo, portanto, profissionais profundamente qualificados.

Este novo perfil profissional, por outro lado, também deverá alterar, no caso brasileiro, a própria legislação da área. Uma legislação muito rígida e corporativa, condizente com outros tempos. Esta necessidade do profissional de transitar por diversas áreas, uma possibilidade alavancada pela própria tecnologia, vai necessariamente provocar alterações. Principalmente no caso do Jornalismo e do Radialismo, por exemplo, em que um locutor de rádio não podia ser redator ou que um repórter de televisão não podia apresentar um telejornal. Embora a legislação continue vigente, ela já está sendo ignorada.

É neste sentido que as Escolas de Comunicação necessitam reavaliar as suas diretrizes curriculares e uma nova legislação deve ser elaborada. Levando em conta não mais a necessidade de “amarrar” mas apenas de nortear o setor da área. Considerando, assim, que este novo profissional multimídia, além de dominar o sentido mais amplo das tecnologias deve transitar pelas diversas áreas, seja de Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Radialismo, Cinema, Editoração, ou Relações Públicas, seja de novos cursos que deverão ser criados.

Os professores do curso de Publicidade e Propaganda da Faculdade de Comunicação Social da PUC do Rio Grande do Sul, por exemplo, discutem atualmente as alterações que deverão ser feitas. E  têm por objetivo desenvolver um curso que forme especialistas na área, mas com  uma visão generalista, “que perceba as mudanças no mercado mas que conjugue a cultura da academia com a mercadológica, podendo agir de forma crítica e transformadora”.

Uma proposta concreta foi apresentada pelo cineasta e professor Carlos Gerbase (1998:41). Para ele,” a imagem não pode ser assunto apenas dos profissionais que as fabricam nos estúdios e dos intelectuais que as dissecam nas academias”. Segundo o cineasta, o estudo da imagem deveria constar no currículo mínimo do ensino de primeiro grau. Para que desde a infância se iniciasse esta “pedagogia da imagem” já que na sociedade tecnológica atual o processo do conhecimento passa, inevitavelmente, por ela.

Neste sentido, Gerbase (p.44) propõe algumas “lições básicas”: desconfiar da imagem – ela é manipulável; aprender os truques de edição; perceber a integração das tecnologias e quem as domina; identificar o texto escrito da Comunicação que aproxima o Jornalismo e a Publicidade, tornando a ideologia mais opaca – mas isto não vale para a imagem, em que a ideologia é transparente. Por fim, e o mais importante, segundo o cineasta, é de que há esperança. Existem jornalistas, publicitários, jornais e agências de publicidade, no seu entender, que se importam com a verdade. “Ainda é possível ler versões diferentes da mesmas notícia, ou ver anúncios que educam ao mesmo tempo que vendem. Ainda dá para ir ao cinema, ligar a TV e ver um bom programa. Ainda não estamos condenados ao império da imagem telecomandada”

 NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDIÓN, Maurício. La Formación de Profesionales en Comunicación. In Revista Dia-logos de la Comunicación (1991), Lima, Felafacs.

APPEL, Ellen (1997). O Novo Profissional para todas as Mídias. Porto Alegre, Famecos/PUCRS, monografia de conclusão do Curso de Jornalismo.

EPCOM/Internet. Porto Alegre, Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação, 18/11/98, acesso@acessocom.com.br

FARO, J.S.(1998). Cursos de Comunicação vivem impasse delicado.In Observatório da Imprensa, 05/11/98, http://www2.uol.com.br/observatorio/

GERBASE, Carlos . Por uma Pedagogia da Imagem. In Levacov, M… et al.(1998) Tendências na Comunicação. Porto Alegre, L/PM.

MELO, J. Marques de. Modernidad o Anacronismo? El dilema de las Escuelas en Brasil. In Revista Dia-logos de la Comunicación (1991), Lima, Felafacs.

MAYA RICARDO, M. Indústria fonográfica: “Mim gosta ganhar dinheiro”. In Revista Famecos, n.8, 1998, Porto Alegre, Edipucrs.

MEC – Ministério de Educação(1998). Dados de 1996 dos cursos de Comunicação Social no Brasil. Brasília, Sesu/MEC.

NAVARRO, Raul Fuentes. Practicas Profesionales y Utopia Universitaria: notas para los comunicadores sociales: entre la crítica y el mercado? In Revista Dia-logos de la Comunicación (1991), Lima, Felafacs.

REIS E SILVA, J.G.B. (1998) El sector Audiovisual en Porto Alegre. Análisis introductorio de sus agentes y estructuras. La Rábida, I Maestria en Comunicación e Industria Audiovisual.

Revista  Mídia Dados 97. (1997), São Paulo, Grupo de Mídia.

SIMON, Pedro, senador (relator) (1998). Rádio e TV no Brasil. Diagnósticos e Perspectivas. Brasília, Senado Federal.

ENTREVISTA

CELENTE, Maria da Graça. Publicitária. Depoimento à autora em Porto Alegre, 19/11/98.

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*Jornalista, professora de Radiojornalismo das Faculdades de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil.

 

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